Iniciativa Gurps – Os custos de uma nau aventureira

INICIATIVA GURPSEsse é um post da INICIATIVA GURPS! Esses posts são sempre conjuntos, temáticos e periódicos. Assim, de 15 em 15 dias, você pode conferir a visão de vários autores sobre um mesmo assunto.

O tema desta edição da INICIATIVA GURPS é PIRATAS!


Muitos mestres e jogadores de RPG, já se viram diante de embarcações em suas aventuras.

viagem

Bem desconhecido esse lugar, não?

Geralmente estas são utilizadas para transportar os heróis através de longas jornadas, unindo terras desconhecidas e apresentando povos exóticos. Em outras ocasiões, permitem o deslocamento de exércitos ou equipamentos de modo mais rápido e direto pelos mapas criativos das campanhas de jogo.

De qualquer modo, torna-se um exercício interessante pensar nos custos de uma embarcação deste porte, em dinheiro, horas de trabalho e árvores abatidas, e nos detalhes necessários as suas construções, uma vez que muitos jogadores desejam construir suas próprias fortalezas flutuantes.

O navio clássico, idealizado por muitos jogadores e envolvido nos cenários do RPG, se aproxima das figuras históricas da Nau e da Caravela, importantes embarcacoes que permitiram a expansão marítima européia iniciada no século XV.

Historicamente, caravelas e naus constituíam as frotas dos descobrimentos. Cabral por exemplo, partiu de Portugal com nove naus, três caravelas e uma naveta de mantimentos.

As Naus de Cabral

O navio modelo para as aventuras de RPG, deve ser observado como quase um híbrido entre as caravelas e as naus, o que certamente satisfará a mestres e jogadores detalhistas. Podemos descrever esta embarcação ideal para as campanhas como possuindo três mastros equipados com velas quadradas e triangulares, medindo entre 30 e 35 metros de comprimento por 6 metros de largura, capazes de transportar 150 toneladas de carga e alcançando uma média de 10 quilometros por hora, aproximadamente 5,8 nós.

A tripulação deve possuir entre 30 e 40 indivíduos, distribuídos em funções definidas, entre marinheiros, calafates, carpinteiros, grumetes, necessárias a uma boa equipe de bordo.

Para a elaboração deste texto, que pretende apresentar uma pequena introdução a este conhecimento, utilizarei algumas das informações contidas nos livros oficiais do Dungeons & Dragons, sempre uma referência importante para os jogadores de RPG, aliadas a dados reais, que construíram a história das embarcações ao longo dos séculos.

O livro do jogador do antigo AD&D segunda edição, trazia o custo aproximado de uma caravela, que era apresentado como sendo de 10.000 moedas de ouro. No Livro do Jogador do D&D3.5, o termo “caravela” não aparece, sendo substituído por “veleiro”, com custo estimado em também, 10.000 peças de ouro.

A descrição do termo veleiro é nitidamente a que mais se aproxima da descrição de uma caravela, apesar de conter alguns pequenos erros técnicos, facilmente corrigidos e adaptáveis.

Tomando como referencia, os cruzados portugueses que possuíam 3,5 gramas de ouro por moeda, uma nau fantasiosa custaria o equivalente a 35 quilos de ouro.

De acordo com o Livro do Jogador do D&D3.5, a moeda de ouro padrão pesa 10 gramas, neste caso uma nau equivaleria a aproximadamente 100 quilos ouro, mais próximo ao valor histórico real.

É importante ressaltar que estes valores estão restritos aos cenários da fantasia, uma vez que uma nau verdadeira custava cerca de 25 mil réis, o equivalente na época a 150 quilos de ouro. Como, depois de construí-la, ainda era preciso equipá-la, e a tripulação ganhava razoavelmente bem, os gastos com uma única nau chegavam a 326,638 quilos de ouro (de acordo com os cálculos obsessivos do historiador naval João da Gama Barata)

Neste caso, acredito que se deve adotar o valor apresentado pelo Livro do Jogador do D&D3.5, assim como o peso apresentado para uma moeda de ouro, o que como já foi ressaltado, deixa os valores mais próximos á realidade.

É importante ressaltar que este valor se refere a uma embarcação sem armamento algum.

No caso de jogadores e mestres desejarem equipar suas naus com canhões e catapultas, comuns a aventuras piratas renascentistas, devem utilizar o valor base de 8.000 moedas de ouro a serem somadas ao valor final da embarcação, referentes a todos os equipamentos necessários a estas adaptações.

Mas como todo este ouro era empregado?

Para a descrição dos itens necessários à construção de uma embarcação, utilizarei os dados referentes à construção de uma nau portuguesa, clássico navio da época dos descobrimentos.

Cada nau consumia, em média, 5 mil toras de madeira nobre: carvalho, sobro, pinho-manso e pinho-bravo. Cada navio construído significava, portanto, no mínimo a derrubada de cerca de mil árvores.

Além das toras de madeira eram necessários cerca de 170 mil pregos, 20 barris de alcatrão, 1.800 quilos de breu, 1.200 quilos de chumbo, 600 quilos de linho e mil quilos de estopa. Esta era feita a partir de velhos cabos de linho, distorcidos e macerados por mulheres pobres, recrutadas na zona portuária.

É importante lembrar que estas construções, se feitas em larga escala, acabam gerando problemas sócio-ambientais aos reinos envolvidos.

Temos como exemplo o que ocorreu em Portugal. Embora cortadas apenas na “lua certa” e sob a proteção de leis (daí a expressão “madeira de lei”), várias espécies foram extintas e, menos de 50 anos depois da viagem de Cabral, a escassez de madeira provocaria seriíssimos problemas à indústria naval lusitana.

E como derrubar milhares de árvores?

Para isto deverá ser empregado o trabalho de lenhadores, marceneiros e ajudantes. Levando-se em conta que um lenhador, trabalhando o dia inteiro pode derrubar de 5 a 10 árvores de tamanho médio, ou seja, com tronco não medindo mais que um metro de circunferência, deve-se aplicar o valor por dia de trabalho como base para saber quanto se gasta somente com este serviço. De acordo com o Livro do D&D3.5 um lenhador recebe por dia o equivalente a 1 peça de prata. Logo, um único lenhador, caso fosse possível trabalhar sem descanso algum, levaria quase 1000 dias para derrubar 5000 troncos, o que consumiria 1000 peças de prata. Logo, deve-se calcular estes gastos, sobre diversos profissionais, às vezes aptos a uma só função. O mesmo raciocínio de cálculos de valor deve ser aplicado sobre os demais profissionais empregados na construção de uma nau: carpinteiros, calafates, marceneiros, mestres de obras, engenheiros e ajudantes.

Uma nau levava cerca de 5 meses para ficar pronta, isto se nenhum contratempo como greves por melhores salários e condições de trabalho, atraso na obtenção de matéria prima ou reviravoltas nas condições climáticas atrasassem a construção.

E como este tempo era distribuído?

Tomemos como exemplo a expansão ultramarina dos portugueses que fez surgir uma bem-remunerada elite profissional, a dos mestres-carpinteiros, calafates (responsáveis pela impermeabilização dos navios) e ferreiros. Eles trabalhavam afanosamente nos estaleiros da Ribeira das Naus, no centro de Lisboa, às margens do rio Tejo. No início do século XVI, ali eram construídas cerca de 40 embarcações por ano. Uma operação complexa: cada nau consumia 3.500 horas de trabalho. Por isso, não havia feriado e até domingos eram desrespeitados.

Apesar de todo o complexo sistema de trabalho e do custo financeiro e pessoal empregado na construção destas embarcações, devemos lembrar que estas não duravam muito. Geralmente, dependendo da viagem, por vezes duravam uma única empreitada, especialmente se esta fosse em mar aberto.

A perda não se referia somente as embarcações mas também as vidas dos marinheiros. Tomemos como exemplo a frota de Cabral, formada por 10 naus e 3 caravelas, que partiu de Portugal em 8 de março de 1500, retornando em 21 de julho de 1501. Das 13 embarcações que partiram, apenas 5 retornaram, em péssimo estado. Dos 1500 homens que originalmente formavam a tripulação da esquadra, 500 retornaram da viagem. Fernão de Magalhães não teve sorte diferente. Em 1519, partiu de Sevilha na Espanha com cinco navios e 260 homens. Três anos depois, quando a frota era dada por perdida, apenas um navio retornou, tripulado por 18 homens, sem seu comandante, esquálidos e moribundos.

E isto em um mundo onde dragões, sereias e monstros faziam parte somente da imaginação, bem diferente dos cenários do RPG.

As viagens marítimas devem ser bem planejadas para que possa obter o maior lucro possível. Desta forma, todo o tempo e dinheiro empregado devem se fazer valer. Apesar de todos os problemas e das dificuldades enfrentadas por Cabral, por exemplo, graças às especiarias obtidas na Índia, a expedição deu lucro superior a 200%.

Seja atrás de tesouros perdidos, terras distantes ou monstros lendários, uma tripulação confiável, um bom comandante e uma embarcação segura são tudo que um aventureiro precisa para desbravar os oceanos da fantasia.

Rodrigo “Allefcapt” Tolentino

allefcapt@globo.com

allefcapt@spellrpg.com.br

Esse é o segundo texto enviado ao RPG Virtual pelo Rodrigo Tolentino, da SpellBrasil.

Agradeço ao Rodrigo pela participação e deixo o convite para quaiquer outros colegas que se interessem pelos assuntos abordados pela Iniciativa.

Até.

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2 Respostas

  1. […] Iniciativa Gurps – Os custos de uma nau aventureira […]

  2. […] RPG Virtual: INICIATIVA GURPS – As Caravelas Piratas para seu jogo. Criando Navios a Vela para GURPS Galeão para GURPS Termos Náuticos Navios de linha Navegação – Os Custos de uma Tripulação Fluyt – O navio mercante Holandês para Gurps Iniciativa Gurps – Os custos de uma nau aventureira […]

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